Reflexões sobre uma possível maternidade

Não estou grávida. Não pretendo ter filhos por agora. Mas quero e já não estou novinha, tenho consciência que a mulher tem um limite e que nascemos com ele, quando óvulo acaba, ai não tem mais jeito. Só que nem sempre as coisas acontecem como gostaríamos, existem uma série de questões que hoje me impedem de engravidar no momento. Mesmo sabendo de tudo isso, eu nunca fui atrás de algum tipo de informação mais precisa sobre idade fértil e saúde da mulher.

E é um mix de coisas: falta de tempo, achar que está tudo bem, que vai vir na hora certa, que se não der naturalmente tem tratamento, trabalho, ter ou não um parceiro, viagens, estudos, programação financeira, responsabilidade, limitações pós-filhos… Ai a gente vai nesta vida louca, empurrando com a barriga (e criando bloqueios) e sendo negligente com as nossas opções, uma hora elas não serão possíveis mais e acabou, game over.

Uns dois meses atrás eu recebi uma caixa da clinica Ibrra cheia de chás e um convite para fazer um exame e uma conversa sobre saúde fértil. Acho que foi o convite mais inusitado e sério que recebi neste período de 7 anos de blog. Sabe aquela balançada? Sabe quando bate aquela curiosidade? Logo pensei: por que não? Pesquisei, marquei a consulta e fiz o exame.

Minha consulta com Dr Bruno Scheffer foi longa. Fez uma anamnese, olhou meu exame que mede a dosagem do hormônio anti-mülleriano (é exame de sangue, sem mistério) e conversamos um pouco sobre a minha saúde e intenções. Senti que o assunto ainda é um tabu. Vejo uma fala preocupada sobre os efeitos colaterais do anticoncepcional* e do embate do parto normal x cesárea*, mas pouco se fala das dificuldades e excesso de responsabilidade que muitas de nós enfrentamos para engravidar.

Conheci uma mulher que dizia não nasceu para ser mãe, na verdade ela disse depois que a vida escolheu por ela, que já não estava biologicamente apta. Ela se escondeu num discurso, na falta de opção que ela se colocou. Nem todo mundo tem que querer ser mãe, ter isso como um projeto de vida ou achar que gravidez/filhos a fará melhor que outras mulheres e isso tá super ok, não há problema nisso, mas tornar esta fala porque não conseguiu não vai ajudar muito… Internamente a pessoa sabe a verdade e deve doer super.

Voltando a minha consulta que foi atípica, mas foi muito esclarecedora e queria compartilhar alguns pontos com vocês de forma mais objetiva:

  • Mulheres nascem com um numero de folículos ovarianos definido e eles são liberados da primeira menstruação até a menopausa.
  • Através de estimulação hormonal, o folículo se torna óvulo.
  • Tomar anticoncepcional não tarda a menopausa, a mulher perde folículo do mesmo jeito, o que acontece é que ele não se torna óvulo e assim não é possível a fecundação.
  • A gravidez não depende somente de ter folículo ou não, mas sim de um conjunto de fatores para que isso ocorra, que passam da genética, saúde e fatores prejudiciais. Com o tempo, o nosso corpo envelhece aos poucos e perde inclusive a condição física para aguentar uma gravidez.
  • Não existe um meio ou método para pausar ou diminuir a perda dos folículos.
  • Muitas vezes a causa da infertilidade não está na mulher, o homem também pode ter problemas. Não tem nada a ver com capacidade sexual, o homem transa, tem ereção, goza, mas o esperma dele pode não ser “bom” o suficiente. No caso, o homem também deve passar por exame (espermograma) para tirar a dúvida e evitar até mesmo tratamentos que só competem a mulher.
  • A mulher não precisa de ir ao especialista de reprodução assistida logo de cara, o ginecologista pode fazer este controle junto com ela. Vejo que muitas vezes não demonstramos as nossas preocupações e o profissional pode não entrar na questão pois se trata de uma decisão que só cabe a pessoa. Mas acho válido o esclarecimento, nem sempre sabemos o que ocorre no nosso corpo e que isso pode ter um custo ou uma impossibilidade
  • Se a mulher não sabe se quer ter filhos, não tem previsão ou não se sente preparada ainda, o indicado é o congelamento de óvulos. Isso também vale para os homens, o congelamento de espermatozoides.
  • Os tratamentos que existem após detectado uma dificuldade para engravidar são: Inseminação Artificial (depósito do sêmen, pós preparo em laboratório, dentro do útero, facilitando assim o encontro do espermatozóide com o óvulo) e Fecundação In Vitro (união do óvulo com o espermatozoide, em laboratório, visando formar pré-embriões que, posteriormente, serão transferidos ao útero).
  • A mulher pode gerar um filho por fecundação in vitro com óvulos e/ou espermatozoides doados se já não possui mais folículos e não fez reserva mas se encontra apta fisicamente.

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Sendo bem sincera, eu fiquei bem tensa pois não era uma conversa apenas, havia um exame que poderia me dar uma noção da minha saúde fértil que eu nunca me preocupei. Na verdade, envelhecer é preocupante (assunto para outro post ok?) e as idas aos médicos já não são tão simples/de rotina. Quando sai da consulta, vi um casal na sala de espera. Juro que me coloquei no lugar deles, imaginei o que eles já passaram, por quanto tempo tentaram sozinhos e agora estavam ali, procurando uma ajuda. Por um lado é bom que tenha jeito para alguns casos, mas pense passar por exames, tentativas e não conseguir engravidar?

Não controlamos a nossa vida, as vezes ela toma rumos que não imaginamos e nem planejamos. Eu vivi isso, sei muito bem e ainda não é o momento. Ainda estou aqui pensando no congelamento dos óvulos, de uma certa forma é o que posso fazer. Isso também me tiraria um peso da validade, no caso, do meu numero limitado de folículos que diminuem a cada menstruação, me dará um pouco mais de controle sobre as minhas escolhas…

<3

Obrigada ao pessoal da clínica Ibrra pelo convite.

 

Ps.*: penso que a mulher deve expor ao profissional de sua confiança as suas vontades e intenções sobre qualquer assunto. Tomar segundas e terceiras opiniões. E considerar que o anticoncepcional ou um parto cesárea é o mais indicado para o caso dela, para a saúde dela (e do bebê). Não sejamos radicais, sejamos racionais. É uma delicia escolher, mas vamos colocar a cabeça no lugar e entender que nem sempre as escolhas e o que funciona para um grupo serve para nós.

Falo por mim, durante anos eu não tomei anticoncepcional, mas por conta de um descontrole hormonal (tinha um sangramento de meio de ciclo que era quase uma segunda menstruação) a minha ginecologista disse que deveríamos tentar o Yaz depois de uma bateria de exames. Claro que eu preferiria não tomar um remédio, mas ele cessou o sangramento que estava cada dia mais incomodo. Tem efeitos colaterais graves, sou consciente disso. Mas foi o que cessou meu desconforto (não o de sangrar, mas o receio de ter algo mais grave envolvido) e fechou a questão.

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Camila Gomes é mineira, mora em Belo Horizonte e se formou em Artes Plásticas. Cresceu vendo sua mãe costurar e escutando histórias sobre sua avó estilosa. Acredita que a moda é um modo de se comunicar assim como cuidar da beleza é reservar um tempo para si. Mesmo que sejam apenas cinco minutos... Quer conversar mais comigo? Me mande um email! contato@srtasenhorita.com

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